PROCURA

VOCAÇÃO MISSIONÁRIA

OPINIÕES

PALAVRA E MISSÃO

TESTEMUNHAS

- veja a parte anterior -

5. Cultura e evangelização: um processo nunca concluído

É a este nível que pode ser lida a tarefa da missão.  Esta tarefa é sublinhada pela Gaudium et Spes, que põe em relevo que a compreensão da cultura é fonte de elementos importantes para o compromisso da evangelização, chamada ao dever de humanização e construção de um mundo justo e fraterno.  Em virtude do caráter de mediação no relacionamento Reino de Deus-história, a missão é um projeto de transformação (GS 2; 39) e de aperfeiçoamento (GS 2;32;39;45). A novidade humana, portanto, purificada do não sentido de uma teórica concorrência entre Deus e o processo de humanização, enxerta uma diferente consciência dos valores que deveriam guiar a existência humana sempre exposta à cilada da não-fraternidade (GS, 37).
Contudo, porém, o relacionamento cultura-evangelização é marcado por uma conflitualidade, no momento em que a evangelização é ciente de produzir uma ruptura instauradora: o Evangelho provoca nas dobras da cultura uma crise, uma reserva de sentido que choca contra a desumanização provocada pelos processos culturais incapazes de por o homem no centro dos próprios interesses. Está aqui a capacidade do futuro da missão: criar obstáculos à lógica do domínio e da assimilação cultural; favorecer, em virtude da sua vocação multicultural, uma cultura do acolhimento e do reconhecimento dos outros.  O teólogo J.B.Metz escreve (38):

 

Há necessidade de um cristianismo desperto, absolutamente crítico da sociedade, que se entenda como comunidade de memória e de história na única e indivisa seqüela de Jesus e que, em quanto tal, opere com fantasia socialmente crítica não só copiada, mas “inventiva”: na resistência produtiva contra o cansaço de ser sujeitos, contra a perda da memória, contra a dissolução da linguagem e o analfabetismo de retorno. Só então também o amor e a fome e sede de justiça não se esgotarão na nossa vida social.

Neste contexto, a missão opera uma interrupção diante qualquer pretensão de relativismo cultural que prefere absolutizar a mesma cultura em prejuízo do serviço à condição humana. Interrupção que pode ser lida segundo a lógica da interculturalidade. Ora, mesmo as propostas de uma re-leitura da categoria de inculturação levam à convicção de uma reciprocidade fecunda entre Evangelho e cultura, na linha daquela que J. Ratzinger chama interculturalidade como lugar para re-pensar os processos de evangelização. «Por isso, não deveríamos mais falar propriamente de inculturação, mas de encontro das culturas ou [...] de inculturalidade. De fato inculturação pressupõe que uma fé, por assim dizer, culturalmente falha se transponha numa cultura religiosamente indiferente [...] Ora, esta representação é artificiosa e irreal, porque não existe uma fé sem cultura e, fora da moderna civilização técnica, não existe uma cultura sem religião. [...] Só segurando a potencial universalidade de todas as culturas e a sua mútua abertura, a interculturalidade pode levar a novas formas fecundas» (39). Nesta perspectiva, a relação entre Evangelho e culturas é entendida no interior de um triplo horizonte constitutivo, assim sintetizável: 1. a fé cristã não se identifica com qualquer determinada cultura; 2. o Evangelho pode e deve habitar em (conviver com) todas as culturas; 3. o relacionamento entre religião cristã e uma determinada cultura acontece através de um processo dialógico que deve ser pensado como relacionamento de reciprocidade.

6. A responsabilidade da Igreja local

Se a inculturação mostra a articulada relação entre revelação bíblica e realidade cultural, o Evangelho exprime uma alteridade gratuita e um mais de significado que não se pode prender em nenhum rígido esquema histórico-cultural. Isto não exclui a reciprocidade entre Evangelho e culturas, mas evidencia a importância criativa da relação, na troca e na partilha.
A lógica deste horizonte apela para a necessidade da evangelização usar um adequado critério teológico (40), que encontra na encarnação o seu ponto determinante. É necessária uma espiritualidade da encarnação (41) que leva o processo de inculturação da fé à aproximação do outro, sem a perda da identidade, enquanto o outro quanto à vida e à mensagem cristã constitui um convite para o encontro e não para a identificação.

A inculturação é o que consente à dinâmica evangelizadora de operar num estilo de interculturalidade, porque o fazer-se próximo do outro requer uma ética da hospitalidade e da visitação. A escuta e a acolhida das culturas por parte da praxe missionária desenha uma significativa tensão entre o particular e o universal, entre a unidade do crer e as diversidades culturais, que implica um enriquecimento mútuo em vista do projeto de salvação. Nesta perspectiva, a missão se exprime na capacidade de assumir as perguntas da vida para reformulá-las e responder à luz das novidades evangélicas.  Isto significa que o processo da inculturação provoca uma mudança, uma conversão cultural tal que a história e o mundo são obrigados a assumir um rosto novo e operar conseqüentemente. O Evangelho não é mais manipulável ou selecionável conforme exigências de comodidade teorética e ética. Amansar sua força salvífica e libertadora significa eliminar aquela tendência à promoção humana e à libertação integral do homem, que pressupõe uma idéia articulada da cultura como produção de sentido nas suas diferentes articulações: da dimensão material e social até a conhecitivo-interpretativa. Escreve P. Suess (42):

A inculturação, por analogia com a encarnação que assume todos os homens e o homem todo, é o instrumento de uma evangelização integral e universal libertadora.  O horizonte integral e universal da inculturação faz perceber sua proximidade com as questões da libertação.  Como a encarnação de Jesus é redentora, também a inculturação, enquanto seqüela de Jesus é libertadora.

É evidente que evangelizar as culturas implica também o risco da profecia e a força em dar forma, não só espaço-temporal, mas também antropológica e teológica, à subjetividade das comunidades eclesiais locais. É a Igreja local (43) o sujeito prioritário da missão na perspectivada catolicidade da mensagem.  “Uma Igreja local sem urgência e paixão missionária simplesmente atraiçoa a própria intrínseca «catolicidade»: é um campo de mortos, e não a comunidade dos ressuscitados no Ressuscitado. Certamente, o envolvimento missionário de cada Igreja terá de acontecer na comunhão com todas as outras, pois só assim se exprime a Catholica” (44). O motivo está na dimensão dialógica da inculturação, onde entram em contato a consistência cultural da vida e a visão cristológica da existência: aqui se requer uma articulada praxe evangelizadora e uma pedagogia mais atenta à dimensão cultural da evangelização que leva consigo sempre uma tensão dramática.  Nesta perspectiva emerge uma exigência improrogável: que o processo da inculturação seja capaz de habilitar e formar (45) as pessoas envolvidas no exprimir uma avaliação crítica da própria visão da vida, para a re-formular à luz da mensagem do Reino. Só depois é possível iniciar aquele processo de reflexão e de re-elaboração que pode levar à análise e à formação de uma cultura nova. Esta brota do confronto entre a própria existência e a visão cristã da história, através daqueles símbolos que a fé propõe como antecipação do significado e da destinação à qual é chamado o acontecimento cultural humano. Então, a dimensão cultural da evangelização levará à re-descoberta da seqüela de Jesus como caminho de acesso à verdade de Deus e do homem, verdades que exprimem toda a riqueza e unicidade da novidade evangélica.  Por isso as comunidades locais são insubstituíveis quando projetar uma solidariedade histórica com os que buscam uma vida melhor e diferente, habilitados a ler os tempos que apelam para aquela salvação que motiva a missão.

Para terminar, se pode afirmar que a ação missionária requer uma constante reincultu-ração, que saiba manter juntas a novidade do Evangelho e a complexidade das situações que exigem um processo atento de criatividade pastoral.  Esta atenção exige alguns pontos firmes, como o conhecimento da dimensão cultural a evangelizar; a perspectiva pneumatológica interprete da história, espaço da ação de Deus; a possibilidade de um diálogo intercultural e inter-religioso onde descobrir a reciprocidade na compreensão vivida do anúncio cristão.  A proposta do Evangelho, então, é que não se pode eliminar a tarefa da comunidade eclesial que, na conversão dos horizontes culturais, é interprete daquela decisiva busca de formas autênticas de vida cristã que há na situação concreta de cada tradição religiosa e cultural.   Todavia, o acontecimento da missão se traduz na capacidade de oferecer caminhos de humanização presentes na originalidade da mensagem cristã, em virtude da qual a Igreja pode propor-se como modelo significativo e alternativo.  O anúncio evangélico se dedica a tornar a terra mais habitável e a comunidade humana mais convivial, na lógica da reconciliação e na perspectiva de um humanismo cristão, inspirados no critério da atenção preferencial pelos pobres e da libertação salvadora.  No testemunho do Evangelho, a comunidade cristã pode exercer um rol de crítica respeito àquelas realidades que, em nome de preconceitos culturais, desenham formas de relativismo ético e ecológico, até às últimas conseqüências da marginalização dos homens e da violência estrutural.
Se é possível tirar uma conclusão é aquela que entrevê no diálogo intercultural e inter-religioso um serviço decisivo para a missão, pelo fato que a comunicação da fé deve ser capaz de falar nas e através das culturas, nas quais o homem e a história podem encontrar Jesus Cristo.   Mesmo em virtude do Evangelho, o agir missionário da Igreja pode doar a cada cultura o projeto de uma humanidade livre, solidária, compassiva, na colaboração dialógica com aquelas tradições religiosas e filosóficas que prezam a centralidade da pessoa humana. Neste modo, a evangelização pode tornar-se profecia de uma cultura nova, na qual os valores do Reino de Deus interceptam as esperanças de salvação escondidas nas perguntas e nas aspirações de cada homem e de cada cultura.

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(38) J.B. METZ, Dov’è finito Dio, e dove l’uomo?. Sulla capacità di futuro del cristianesimo occidentale-europeo, in F.-X. KAUFMANN – J.B. METZ, Capacità di futuro. Movimenti di ricerca nel cristianesimo, Brescia 1988, 143.
(39)J. RATZINGER, Fede Verità Tolleranza. Il cristianesimo e le religioni del mondo, Cantagalli, Siena 2003, 66.
(40) Cf. A. ROEST CROLLIUS, What is So New about Inculturation? A concept and its Implications”, in Gregorianum 59 (1978) 721-738; C. NYAMITI, Teologia de la inculturaciòn. Una perspectiva africana, in Scripta Teologica 24 (1992) 753-812; A. KAROKARAN, Inculturation: Implications for Mission and Community  Building, in Mission Today 4 (2000)  34-59; A. AMATO, Criteri di inculturazione, in COMITATO CENTRALE DEL GRANDE GIUBILEO DELL’ANNO 2000, Il Concilio Vaticano II. Recezione e attualità alla luce del Giubileo, a cura di R. FISICHELLA, Cinisello Balsamo 2000, 585-592.
(41) Veja B. SECONDIN, Spiritualità in dialogo. Nuovi scenari dell’esperienza spirituale, Milano 1997, 206-225.
(42) P. SUESS, Inculturazione, in Mysterium Liberationis. I concetti fondamentali della teologia della liberazione, Roma 1992, 857.
(43) Rinviamo a: G. COLZANI, La Chiesa locale e la missione: un compito e un problema, in La Scuola Cattolica 113 (1985) 478-499; F.-V. ANTHONY, Ecclesial praxis of inculturation. Toward an Empirical-theological Theory of Inculturizing Praxis, LAS, Roma 1997, 111-142; M. de FRANÇA MIRANDA, Inculturazione della fede. Un approccio teologico, Queriniana, Brescia 2002, 224-235.
(44) B. FORTE, La comunione particolare ed universale a servizio della missione, in PONTIFICIE OPERE MISSIONARIE, La Chiesa mistero di comunione per la missione. Un contributo teologico e pastorale, Città del Vaticano 1997, 102.
(45) Cf. L. MEDDI, Missione e pratica formativa. Punti fermi e aspetti da approfondire, in Redemptoris missio 21 (2005) 5-31.

5. Inculturação, percurso já concluído?

Carmelo Dotolo, Teólogo - Tradução: Candido Poli
Roma - Julho 2008