
À porta da igreja de uma aldeola situada na margem ocidental do lago de Garda, no Norte da Itália, dona Domingas parou, para se benzer com água benta, e a passar às senhoras que
entravam... Em voz sumida diz a cada uma: «Reze à Virgem para que não deixe partir o meu Daniel.» Ao terminar a missa, o «milagre» aconteceu. A Virgem – Nossa Senhora das Graças, muito venerada na paróquia de Limone (é este o nome da aldeola do lago de Garda) – convenceu a dona Domingas a deixar o seu filho livre para seguir a sua vocação.
Regressando a Verona para os últimos preparativos da expedição missionária à África, o Pe. Daniel, de 26 anos, com 1,75 metros de altura, corpo de atleta, dois olhos vivazes que falam primeiro que os seus lábios, envia uma fotografia a seus pais em que escreve as palavras de Jesus: Quem amar o pai e a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim. Dona Domingas, apertando entre as mãos a última lembrança do filho, beija-a chorando: Senhor, de oito filhos que me deste, resta-me só este e... de papel.
Daniel era, de facto, o único filho sobrevivente; os outros tinham morrido em tenra idade. O missionário que se despede de sua família para anunciar aos povos distantes o Evangelho de Jesus pode parecer duro e sem coração. Na realidade, poucos como ele amam seus pais com um carinho especial, sublimado e enriquecido pela graça.
Adeus querido pai, adeus querida mãe – escreve o Pe. Daniel ao iniciar a sua primeira aventura missionária –, vós estais e viveis sempre no meu coração. Eu amo-vos e estimo-vos muito, pois soubestes realizar uma obra heróica que os grandes e os heróis do mundo não sabem cumprir... Este filho, que era todo o vosso património na Terra, consagraste-lo completamente a Deus, não reservando para vós mais que o perene sacrifício do seu afastamento e até a sua perda por amor de Jesus Cristo.
Chegado à sua missão, o Pe. Daniel escreverá à sua mãe: Oh, se visses a miséria que há nestas paragens! Se tivesses cem filhos, dá-los-ias todos a Deus... Sim, querida mãe, és sumamente querida a Deus; e eu vanglorio-me de te ter como mãe.
Há mais de século e meio, a 15 de Março de 1831, em Limone sul Garda, uma aldeola escondida no meio dos olivedos, chamada Teseul, nascia um menino a que, no Baptismo, deram o nome de António Daniel.
Seus pais, Luís e Domingas Comboni, trabalhavam como assalariados numa quinta de limoeiros, propriedade de um senhor rico, e ganhavam o pão de cada dia com muito sacrifício. Limone tinha esse nome devido às plantas que aí eram cultivadas, graças ao clima suave do lago. 
Daniel cresceu respirando o ar puro das montanhas que cercam o lago, manifestando desde pequeno vivacidade de carácter e de inteligência. Os velhos camponeses da aldeia lembram tê-lo visto diversas vezes subir a uma elevação no terreno que aí havia, abrir os braços como um orador e gritar um nome inconscientemente profético: África, África!
Em casa recebeu uma educação humana e religiosa muito profunda. Sem grandes recursos materiais, Luís e Domingas Comboni demonstravam a riqueza inestimável das suas virtudes. Terminado o ensino primário na aldeia, Daniel teve de atravessar o seu maravilhoso lago e ir até à cidade de Verona, onde se matriculou como aluno externo do seminário, ficando alojado em casa de uma família de idosos, que, ao que se sabe, não se alargavam na comida que lhe davam.
O jovem queria entrar no seminário para se tornar sacerdote, porém a pobreza de seus pais não lho permitia. A Providência de Deus, que se manifesta sempre aos que n’Ele confiam, veio ao seu encontro de modo inesperado.
Vivia então em Verona o Pe. Nicolau Mazza, um santo sacerdote, professor de matemática no seminário diocesano, que, uns anos antes (1829), fundara um instituto para
meninas órfãs e abandonadas e, em 1833, um colégio para rapazes pobres, mas ricos de inteligência e fé, capazes de se tornarem fermento cristão no meio da sociedade, no exercício de uma profissão.
Ajudando-os nos estudos como alunos externos do seminário diocesano, o Pe. Mazza dava-lhes plena liberdade para escolherem um rumo na vida, segundo as suas inclinações e o chamamento do Senhor. Ao terminar os estudos liceais, alguns entravam no seminário, para serem sacerdotes diocesanos, ou num instituto religioso; outros, pelo contrário, frequentavam a Universidade de Pádua para seguirem as suas carreiras.
Em Fevereiro de 1843, aos 12 anos, Daniel Comboni teve a sorte de ser recebido no colégio do Pe. Mazza, situado na Rua de São Carlos, 5.
Dotado de uma inteligência invulgar e de uma grande bondade, Daniel demonstrava um carácter muito vivaz, que se manifestava frequentemente em travessuras, que os superiores do colégio se apressavam a corrigir.
Um dia, enquanto os alunos saíam do colégio para passear, em filas de dois a dois, encontraram à porta o reitor, o Pe. Tomba.
Todos, ao passar diante dele, tiravam o chapéu em sinal de respeito; só Daniel não o tirou. O reitor chamou-o à atenção, mas o rapaz hesitou. Finalmente, tirou o chapéu, de onde caíram alguns pêssegos surripiados na despensa.
Outra vez, no Verão de 1848, um grupo participava num desafio de futebol com os alunos de outro colégio. A equipa que perdesse teria de pagar um cesto de pêssegos.
Um passe mal feito desviou a bola em direcção a um soldado austríaco, que estava de sentinela na torre da vizinha fortaleza. Daniel, com os seus 17 anos, pediu ao militar, num alemão rudimentar e com gestos, que lhes devolvesse a bola, oferecendo-lhe em troca dois cêntimos. O soldado, em resposta, furou a bola com a baioneta. Daniel, sem pensar nas perigosas consequências que o seu gesto poderia ter numa cidade dominada pelos austríacos, trepou o muro, atirou-se ao sentinela e deitou-o ao chão.
O Pe. Mazza gostava muito de Daniel e perdoava as suas travessuras pelo empenho nos estudos, pela extraordinária memória e, sobretudo, pelo seu espírito generoso.
Tinha apenas 15 anos quando encontrou o livro que contava a história dos Mártires do Japão, escrito por Santo Afonso Maria de Ligório. Comovido com as grandes façanhas daqueles missionários e cristãos, sentiu nascer no seu coração a vontade de consagrar a sua vida à evangelização do Japão.
Mas Deus já lhe tinha preparado outro campo de trabalho, mais perto geograficamente, mas não menos difícil: a África central.
Em Janeiro de 1849, chegou a Verona, regressando da sua primeira e difícil experiência africana, o Pe. Ângelo Vinco, um missionário de 30 anos, ex-aluno do Instituto Mazza. Tinha partido três anos antes com dois jesuítas, um sacerdote esloveno do Colégio de Propaganda Fide, de Roma, e um bispo já emérito, para iniciar a missão da África central, a mais vasta e, talvez, a mais arriscada do mundo.
Em 1846, por insistência de um sacerdote de Malta, Annetto Casolani, ex-aluno do Colégio de Propaganda, que, por sua vez, fizera investigações sobre África, a Sagrada Congregação de propaganda Fide (a organização pontifícia que dirigia a actividade missionária no mundo) criou o vicariato apostólico da África central, confiando-o à responsabilidade directa de D. Casolani, consagrado bispo em Roma com essa finalidade.
O vicariato compreendia uma imensa zona, que ia desde o Sara até à linha do equador. Na hora
da partida, D. Casolani, por divergências de opinião com os outros membros da expedição, renunciou ao cargo de vigário apostólico, e viajou como um mero membro da comitiva, chefiada pelo jesuíta polaco Maximiliano Ryllo. Nesta expedição encontrava-se também o Pe. Ângelo Vinco.
Hoje, para viajar de Roma até Cartum, bastam cinco horas de voo. Aqueles primeiros missionários precisaram de três meses de canseiras, aventuras e peripécias só para o trajecto do Cairo até Cartum. Quatro meses depois da chegada à cidade dos dois Nilos, em 1848, o Pe. Ryllo morreu de diarreia e febres contraídas durante a viagem.
As primeiras tentativas de evangelizar o Sudão haviam sido levadas a cabo no século VI. Os missionários enviados de Constantinopla conseguiram converter ao cristianismo numerosos sudaneses e fundaram na região da Núbia (entre o Egipto e Cartum) três reinos cristãos, que floresceram durante dez séculos, decaindo mais tarde devido a pressões externas dos muçulmanos e às discórdias internas dos cristãos.
Quando os missionários do Colégio de Propaganda Fide chegaram a Cartum no dia 11 de Fevereiro de 1848, o Sudão, conhecido pelos geógrafos da Idade Média como “Terra dos Negros” – (Bilad es-Sudan) –, compreendia as regiões setentrionais habitadas pelos árabes e pelas tribos arabizadas. Estava separado das regiões tropicais por mil quilómetros. Aí viviam numerosas tribos negras, que só se podiam atingir subindo o rio Nilo.
O clima demasiado quente era seco no Norte, por causa do deserto, e húmido no Sul devido às impenetráveis florestas e pântanos. Os habitantes do Sul morriam como moscas, vítimas da desnutrição, do paludismo e de outras doenças tropicais e, mais ainda, pelas constantes investidas dos negociantes de escravos, favorecidas pelos europeus sem escrúpulos, pela crueldade dos chefes locais e pela falta de comunicações.
A primeira expedição missionária, chefiada por D. Ryllo, fracassou totalmente. As agruras do clima e do ambiente, a impossibilidade de receber ajudas da Europa, atormentada pelas famosas revoluções de 1848, obrigaram os missionários a regressar com urgência à sua pátria em busca de ajudas e iniciativas mais apropriadas.
Frequentemente, julgamos irreparáveis certas derrotas, porque não nos lembramos que Deus pode utilizá-las para realizar os seus projectos de salvação. Se o Pe. Ângelo Vinco, em Janeiro de 1849, não tivesse sido obrigado a regressar à pátria devido aos acontecimentos e para pedir ajudas, provavelmente Daniel Comboni nunca teria sido o grande apóstolo da África que nós hoje recordamos. E também não teríamos os institutos missionários fundados por ele, que presentemente contam mais de 4300 membros, entre sacerdotes, irmãos, religiosas e seculares, presentes em quatro continentes, para anunciar aos pobres a Boa Nova do Reino.
Os dois meses que o missionário passou entre os jovens alunos do Instituto Mazza foram suficientes para suscitar uma forte onda de entusiasmo e para orientar decididamente Daniel Comboni para a África.
O Pe. Ângelo Vinco regressou ao Sudão para aí morrer com apenas 33 anos, entre os indígenas da tribo Bari, enquanto se preparava para uma expedição até ao Sul.
Convencido de que para o missionário não basta uma formação espiritual e cultural normal, Daniel começou a disciplinar melhor o seu carácter e a plasmar o seu coração numa linha de profunda generosidade e caridade. Com este empenho de dedicação total à promoção humana e à salvação espiritual dos povos mais «necessitados» (é uma palavra que se encontra frequentemente nas suas cartas), Daniel foi ordenado sacerdote aos 23 anos, na catedral da cidade de Trento, no dia 1 de Janeiro de 1854. 
Os conselhos de um exímio conhecedor de almas, o Pe. João Marani, acabaram com as últimas dúvidas sobre a sua vocação missionária.
Em 1855, enquanto esperava ansiosamente que se realizasse o seu desejo, eclodiu a cólera nos arredores de Verona. O Pe. Daniel obteve dos seus superiores a autorização para assistir os doentes da aldeia de Buttapietra, situada a poucos quilómetros da cidade, passando dias e noites nesse trabalho. Para estar sempre preparado para qualquer necessidade, dormia num banco. Diz-se que um dia, encontrando-se em casa de um doente muito pobre, que nem sequer tinha um retalho de pano para as ligaduras, o Pe. Daniel rasgou um pedaço da sua camisa e com ele socorreu o doente.
Entretanto, o Pe. Nicolau Mazza, ansiando realizar um projecto de evangelização na África, pôde enviar para o vicariato apostólico da África central um pequeno grupo de cinco sacerdotes do seu Instituto e um leigo de Udine como auxiliar. O mais novo do grupo era Daniel Comboni, com 26 anos.
Terminados os preparativos, os missionários veroneses ajoelharam-se aos pés do Pe. Mazza para receberem a sua bênção: Ide, meus filhos, em nome de Deus. Recordai-vos que a obra a que vos consagrais é obra d’Ele. Amai-vos e respeitai-vos mutuamente. Buscai e promovei sempre a glória de Deus.
No dia 10 de Setembro de 1857, a pequena comitiva saiu do porto de Trieste dirigindo-se para Alexandria, no Egipto. Depois de uma breve paragem no Cairo e uma peregrinação à Terra Santa, embarcaram numa dahabiyah (embarcação árabe) no rio Nilo. Foram necessários mais de 40 dias para chegarem a Korosko e mais dois meses, a dorso de camelo pelo deserto, para ir de Korosko a Cartum.
Em Fevereiro de 1858, depois de uma outra viagem, navegando no rio Nilo no «Stella Matutina», o barco que a missão adquirira, desembarcaram em Santa Cruz, a estação missionária fundada quatro anos antes pelo alemão Pe. Mozgan, a 6º 40’ de latitude norte, num local insalubre.
Não é fácil ter uma ideia adequada da audácia de que precisaram estes heróicos missionários para enfrentarem estas regiões inexploradas e perigosas devido às feras e às tribos aguerridas que as habitavam. Houve uma ocasião em que o «Stella Matutina» encalhou num baixio do Nilo.
Era meia-noite. Na margem direita crepitavam as fogueiras dos Denkas, enquanto na margem esquerda podiam ver-se as pirogas dos Shiluk, duas tribos inimigas dos brancos.
Três dias depois da nossa chegada a Santa Cruz – escrevia o Pe. Comboni –, um leão arrastou um burro para fora da choupana e devorou-o. No domingo passado, o Pe. Ângelo Melotto e eu, tendo penetrado na floresta durante hora e meia à procura de troncos para fazer um cabana, vimos um grande número de árvores derrubadas pelos elefantes e manadas de búfalos e leões, mas não nos fizeram mal, porque Deus nos protege.
Em Santa Cruz, os missionários do Pe. Mazza viviam numa choupana de barro e palha com quatro metros de diâmetro, que antes fora usada como curral. As camas eram umas tábuas, a mesa um caixote de madeira, as cadeiras o chão. Em tudo tinham que arranjar-se sozinhos: trabalhar a madeira para fazer alguns móveis, cozer o pão no forno, lavar a roupa no rio, remendar as roupas, estudar a língua denka e tentar estabelecer os primeiros contactos com os indígenas.
No dia 26 de Março de 1858, um mês após a chegada a Santa Cruz, morria um dos missionários do grupo com apenas 33 anos, o Pe. Francisco Oliboni, que, antes de ir para a África, tinha sido professor num colégio de Verona.
O Pe. Francisco, já em agonia no seu humilde leito
, teve ainda a força de dizer estas palavras proféticas: Eu morro, irmãos, e morro contente porque Deus assim o quer; mas vós não desanimeis por causa disso nem recueis nos vossos propósitos; continuai a obra iniciada e, mesmo que fique um só de vós, não perca a esperança nem se retire. Deus quer a missão africana e a conversão dos negros. Eu morro com esta certeza.
O Pe. Comboni recolheu estas palavras como um testamento sagrado e sobre o túmulo do companheiro falecido pronunciou o seu juramento: «África ou morte!»
Pouco tempo depois, o clima impossível de Santa Cruz, o calor, a humidade e os mosquitos reduziram Comboni a um estado lastimoso. Com o coração aflito, teve de deixar, juntamente com os companheiros, aquele pedaço de terra africana para a qual tinham feito tantos projectos, e regressar imediatamente a Cartum e depois à Itália, esperando tempos melhores.
Na Itália, esperavam-no outros sofrimentos. A sua mãe tinha morrido e o seu pai ficara sozinho e necessitado de assistência. «Pobre Daniel – comentavam os camponeses de Limone –, tinha razão ao afirmar que morreria se fosse para aquelas terras. Não morreu, mas pouco faltou.»
Incapaz de se conformar com os planos da prudência humana, fiel à vocação que Deus lhe dera, repetiu: Estaria disposto a morrer mil vezes pelos infelizes africanos.
Fracassadas as tentativas para estabelecer a missão africana, a Congregação de Propaganda Fide estava decidida a acabar imediatamente com o vicariato da África central depois de aos missionários alemães e veroneses sucederem os franciscanos em 1861. Infelizmente, a situação não melhorou. Em menos de dois anos, 13 franciscanos morreram naquelas regiões inóspitas. Dezasseis anos de generosos esforços custaram 44 vidas entre sacerdotes, religiosos e leigos.
Repetidas tentativas foram outros tantos fracassos. Também resultou inútil a experiência de formar jovens africanos na Itália. Quase nenhum deles resistiu aos rigores do clima invernal. Era convicção comum que seria arriscado tentar igual aventura.
Menos pessimista era Daniel Comboni. Continuava a acreditar na missão africana, embora isso significasse para ele ter de começar tudo de novo, apegando-se à ajuda divina e ao seu valor pessoal.
No dia 15 de Setembro de 1864, enquanto estava em oração na Basílica de São Pedro, em Roma, Deus inspirou-lhe um novo e audacioso projecto: «Salvar a África com a África.» Ao chegar a casa, fechou-se num quarto durante 60 horas quase consecutivas e escreveu o seu «Plano para a Regeneração da África».
Deus deu-lhe a entender, através de constantes e duras experiências, que os missionários europeus na África não conseguiam resistir. Era necessário preparar sacerdotes e evangelizadores indígenas. Se os negros não conseguiam sobreviver na Europa devido ao clima e ao ambiente, era conveniente abrir escolas e colégios em determinadas zonas de África onde a vida era possível tanto para os europeus como para os africanos.
O «Plano» continha numerosas intuições que não se limitavam à missão da África central, mas que abarcavam todo o continente e propunham uma «pastoral de conjunto» com a colaboração de todas as congregações e institutos que trabalhavam em África.
Ainda hoje, é possível provar a clarividência do «Plano» de Daniel Comboni, já abundantemente confirmado pelos acontecimentos.
O «Plano» foi acolhido favoravelmente pelo Papa Pio IX, grande admirador do missionário veronês, pela Congregação de Propaganda Fide e por numerosos bispos missionários.
Não faltaram opiniões contrárias, mas a confiança em Deus e no futuro da Igreja em África triunfou.
A concretização das primeiras etapas do «Plano» obrigou Comboni a realizar diversas viagens à França, Alemanha, Áustria, Polónia e Rússia para sensibilizar pessoas interessadas na evangelização do continente africano e para criar grupos de apoio.
No dia 2 de Agosto de 1865, o Pe. Nicolau Mazza morreu em Verona, deixando Comboni sozinho com os seus projectos, porque a nova direcção do instituto não queria prosseguir com a iniciativa africana por causa das dívidas e de certas divergências internas.
Daniel Comboni encontrou então um grande protector no bispo de Verona, D. Luís de Canossa. Com o apoio do bispo, Comboni fundou, em 1867, o Instituto para as Missões da África Central e confiou a direcção do mesmo ao Pe. Alexandre Dal Bosco, um dos seus primeiros companheiros de missão em Santa Cruz.
Após cinco anos, quando veio a faltar a colaboração do instituto francês das religiosas de São José da Aparição, sentiu-se obrigado, contra a sua vontade, a fundar em Verona a Congregação das Missionárias Combonianas, dedicadas unicamente ao apostolado missionário na África.
A vida de Daniel Comboni está salpicada de episódios e aventuras que davam uma novela...
s Em Dezembro de 1862, quando se encontrava em Paris hóspede do barão Havelt, às 10 horas da noite, parou de repente um coche diante da porta do palácio. Dele desceu um senhor, que pediu para falar com o «missionário da África».
Comboni subiu para o coche, que partiu imediatamente. Sentou-se entre pessoas que inspiravam pouca confiança.
Alguns minutos mais tarde, um deles rompeu o silêncio.
- Perdoe-me, padre, temos que lhe vendar os olhos.
- Mas não me chamaram para assistir um moribundo?
- Sim, mas temos de obedecer.
- Isto é uma armadilha, bradou nervoso o missionário, tentando abrir a porta do coche. Mas um dos homens puxou de um punhal e outro de uma pistola. O coche andou às voltas durante duas horas, que lhe pareceram uma eternidade.
Finalmente parou e o missionário foi convidado a descer. Fizeram-no entrar num palácio e percorrer grandes salas e grandes corredores, antes de lhe tirarem a venda dos olhos.
Fecharam a porta e disseram-lhe rispidamente:
- Tem apenas duas horas para falar.
Comboni deparou com um senhor, que começou por dizer:
- Desculpe, padre, fui eu quem pediu para o trazerem aqui. Membro de uma sociedade secreta, fui encarregado de matar um bispo. Tendo-me negado a fazê-lo, condenaram-me à morte. Daqui a duas horas abrir-me-ão as veias do pescoço e o meu cadáver será atirado ao rio Sena. Quando me filiei nesta sociedade secreta, impus como condição que me permitissem receber os sacramentos antes de morrer. Por isso, o trouxeram aqui, porque o senhor é estrangeiro.
O pobre homem disse que tinha sido educado pelos jesuítas, que tinha uma esposa muito devota e uma filha religiosa. Depois confessou-se e reconciliou-se com Deus.
Passadas as duas horas, a porta abriu-se e entraram três homens: o missionário suplicou que lhe dessem mais uns 20 minutos, que lhe foram concedidos com uma certa dificuldade. Teve então tempo para anotar a direcção da esposa e da filha do condenado. Enquanto Comboni o exortava a oferecer a Deus o sacrifício da sua vida e confiar n’Ele, regressaram os três para levar o condenado e para o amarrar de pés e mãos.
O missionário teve apenas tempo para escutar as suas últimas palavras:
- Reze por mim. Deus o recompense.
Vendaram-lhe novamente os olhos e obrigaram-no a subir para o coche. Depois de muitas voltas, abandonaram-no num descampado, a três horas de caminho de Paris.
- Ai de ti se falares! – disseram-lhe os três –; o nosso punhal iria apanhar-te mesmo no Centro da África.
Três dias depois, na morgue de Paris, Comboni reconhecia o cadáver do condenado, retirado do rio, por uma medalha que tinha colocado ao seu pescoço durante a conversa.
Logo que lhe foi possível, Comboni foi ao mosteiro onde vivia a filha do assassinado. A jovem religiosa, depois de ter escutado a narração do trágico episódio, exclamou:
- Padre, saiba que eu ofereci a minha vida pela conversão da África.
Comboni foi convidado a participar no Concílio Vaticano I como teólogo do bispo de Verona e teve a felicidade de ver o seu «pedido para a redenção da África» assinado por mais de 200 bispos. Alguma coisa começava a mover-se na Igreja e no mundo em favor da África.
Em Maio de 1872, a Propaganda Fide decidiu confiar ao Instituto Missionário de Verona, fundado por Comboni, o vicariato apostólico da África central, nomeando Comboni como responsável, com o título de pró-vigário apostólico. Se, por um lado, esta decisão se podia considerar com um prémio para as muitas canseiras e sofrimentos, por outro, representava uma séria responsabilidade para a família missionária comboniana.
O rito comovente da despedida do primeiro grupo de missionários teve lugar em Verona na capela do Paço Episcopal.
Depois de uma viagem atribulada de 99 dias, a caravana dos missionários chegou a Cartum, que estava em festa pela chegada do novo pastor.
A viagem do Cairo até Cartum pode fazer-se hoje em poucas horas de avião. Nos tempos de Comboni, a caravana, composta por 50 camelos, gastou três meses. Às duas da madrugada montava-se nos camelos e viajava-se durante 10 horas por dia debaixo de um sol que superava os 50 graus centígrados. O único alívio durante essas longas viagens era um pouco de água quente e fétida, conservada nas «ghirbas» de couro.
Durante uma dessas viagens, o camelo em que Comboni seguia assustou-se ao ver uma hiena e atirou-o ao chão, obrigando-o a parar durante alguns dias. De noite, enquanto os outros dormiam deitados nas esteiras, Comboni retirava-se e, à luz de uma vela, ia rezando o breviário.
Contam que um dia, faltando-lhes a água, os companheiros de viagem pediram a Comboni que não os deixasse morrer à sede. Cheio de confiança em Deus, Comboni pôs-se a rezar; depois fez um buraco na areia com o seu bastão e logo brotou uma fonte de água.
Nas suas numerosas cartas, dirigidas aos benfeitores e amigos da Europa, Comboni descreveu a dramática situação em que viviam os povos do Sudão, dizimados pelo comércio dos escravos: Algumas vezes por mês saem de Cartum grupos de «jilabas» (negociantes árabes), armados de
espingardas e vão até às tribos mais próximas e até às mais afastadas, arrebatam violentamente às famílias muitos rapazes, meninos e jovens mães, matando quase sempre os pais e aqueles que tentam defender-se. Depois de conseguirem juntar mil, dois mil ou cinco mil escravos, vão-se embora para os vender nos mercados do mar Vermelho e do Egipto... Estas pobres criaturas fazem esta longa viagem caminhando à força de chicotadas.
Por toda a parte se encontram cadáveres de escravos mortos ao longo do caminho.
São tantos os corpos, que as hienas não conseguem devorá-los a todos. Segundo os cálculos do explorador italiano Rómulo Gessi, todos os anos, só na região do Bahr el-Ghazal, uma das províncias do Sudão meridional, eram capturados e levados para os mercados do mar Vermelho cerca de 100 mil escravos.
As missões de Cartum e de outros centros transformaram-se imediatamente em refúgios para muitos escravos que conseguiam escapar. Alguns eram resgatados pelos próprios missionários, que gastavam grandes quantias de dinheiro.
Numa ocasião, um rapaz, que os negreiros capturaram juntamente com a mãe e três irmãs, depois de terem morto o pai, pulou o muro da missão de El Obeid, pedindo asilo. Algum tempo depois, veio o dono juntamente com a mãe para levar o rapaz, mas este quis a todo o custo ficar na missão. Comboni preparou-o, deu-lhe o baptismo e mandou-o para Roma estudar filosofia e teologia. Daniel Sorur, ordenado sacerdote, foi um dos alicerces da Igreja do Sudão, a primeira grande realização do «Plano» comboniano: «Salvar a África com a África.»
A característica da vocação missionária de Comboni foi o amor ao sofrimento, aceite com alegria pelo Reino de Deus: Para levar a cruz de Cristo até ao Centro da África – escreveu ele numa carta –, temos de sofrer, ser desprezados, ser caluniados, condenados talvez e... morrer, porque as obras de Deus são marcadas pela cruz... eu sou feliz na cruz, que, levada com alegria por amor a Jesus Cristo, gera o triunfo e a vida eterna.
Para premiar as suas grandes canseiras e reparar a sua honra ultrajada pelas calúnias dos inimigos – os santos têm muitos amigos, mas frequentemente também inimigos –, o Papa Pio IX concedeu-lhe, em Julho de 1877, a honra de bispo e vigário apostólico da África central.
Recebida a consagração em Roma na capela do Colégio de Propaganda Fide no dia 12 de Agosto, Comboni regressou a Verona, acolhido calorosamente por uma multidão de admiradores.
Os vendedores de jornais ofereciam nas ruas o seu retrato: Daniel Comboni por cinco réis!... O bispo, sorrindo, comentava: «Vejam lá... vendem-me por cinco réis!»
Olhando para a cruz de ouro que trazia ao peito, dizia gracejando: Esta cruz é preferível a qualquer outra, porque traz em si a honra de trabalhar pela salvação das almas e de oferecer, a exemplo de Jesus Cristo, a vida por elas. Em Dezembro já estava pronto para regressar à África, acompanhado por um grupo de missionários, que incluía também os cinco primeiros membros do instituto que tinha fundado.
Muito comovedora foi a despedida de seu pai, já idoso, antes de embarcar no comboio que o levou para Roma. Abraçando o filho bispo, o senhor Luís exclamou: Daniel, se soubesses quanto te amo... és o único filho que me resta..., mas, se tivesse cem filhos, todos os daria pela salvação das almas.
O bispo, com as lágrimas nos olhos, retorquiu: Meu Deus, deixo o meu pai e talvez para não voltar a vê-lo..., mas estaria disposto a deixar cem pais, se os tivesse, para te servir, Pai celestial, e para cumprir a Tua vontade.
A actividade episcopal de D. Daniel Comboni no Sudão durou apenas quatro anos, marcados por acontecimentos trágicos, que consumiram a sua saúde e o levaram prematuramente à morte. Novas desventuras ameaçavam os povos do Norte e do Sul. Após uma terrível seca sobreveio a
carestia. Nos primeiros tempos conseguia-se encontrar, embora com dificuldade, um pouco de farinha, pagando-a vinte vezes mais cara. Muita gente só comia ervas secas. Alguns, não tendo nada para comer, chegaram a alimentar-se com excrementos de camelo. Pagavam a água por um preço altíssimo e para a conseguir tinham que andar muitas horas debaixo de um sol abrasador.
Após dez meses de seca, o céu cobriu-se de nuvens, mas as chuvas foram tão violentas que destruíram as cabanas da gente, obrigando-a a ficar à mercê da intempérie dia e noite, torturada pelo sol e por uma humidade mortífera.
Acabaram-se todas as provisões alimentares e o dinheiro que tínhamos – escrevia Comboni do Sudão –; e vemo-nos obrigados a fechar a porta a tantos pobres e infelizes que nos pedem um pedaço de pão.
Calcula-se que metade da população morreu de fome, sede, peste e outras doenças.
Pobre Comboni! O seu coração generoso estava desolado perante a impossibilidade de socorrer tantas misérias.
Para agravar as tribulações contribuíram sacrifícios ainda mais penosos: foram oito as vítimas de uma doença fatal entre sacerdotes, leigos e religiosos.
O explorador italiano Pellegrino Matteucci fazia o seguinte comentário, em Janeiro de 1879: «Escrevo e choro. Dos missionários de Cartum, só Daniel Comboni sobrevive.»
O físico robusto do vigário apostólico encontrava-se já seriamente desgastado por tantos sofrimentos.
Ao regressar, em Julho de 1881, de uma longa viagem de El-Obeid, aonde fora visitar as missões do Kordofan, uma forte tempestade, que durou toda a noite, apanhou-o no caminho, obrigando-o a parar e a descansar durante cinco horas deitado num colchão ensopado em água. A mesma sorte coube aos companheiros. Quando aprouve a Deus, chegou a Cartum, mas as febres, a insónia, a falta de apetite e outras doenças acabaram com ele.
Aos sofrimentos físicos juntaram-se as dores morais, não menos penosas, tais como a morte repentina de missionários e religiosos, o abandono de alguns colaboradores receosos de uma trágica situação.
As febres atormentaram o bispo durante três dias. Uma grande dor lhe causou a morte repentina do Pe. João Fraccaro, um sacerdote que ele trouxera para ser seu vigário-geral. Comboni tentava confortar os outros, mas a sua voz era débil e tinha os olhos cansados.
Depois de uma noite sem dormir, com as escassas forças que lhe restavam, levantou-se, arrastando-se pela casa para consolar os missionários; mas a febre obrigou-o a voltar à cama. Às oito horas da noite, devido à febre, começou a sentir calafrios. Erguendo a mão em atitude de bênção sobre todos os seus filhos, confortou-os dizendo: Não temais, eu morro mas a minha obra não morrerá.
Entrando em agonia, pelas dez horas da noite exalava o último suspiro. Era o dia 10 de Outubro de 1881.
Nessa mesma noite, uma grande cruz luminosa foi vista a brilhar no céu de Limone na direcção da África.
No dia seguinte, foi celebrado o funeral com grande solenidade, com a participação das mais altas autoridades do país, dos cônsules europeus residentes em Cartum e uma multidão incontável de pessoas de todas as classes sociais e religiosas, que vieram manifestar a sua amizade e gratidão ao grande «Mutran es-Sudan» (bispo do Sudão). O corpo de Daniel Comboni foi enterrado no jardim da missão, junto do túmulo do Pe. Maximiliano Ryllo, a primeira vítima da Igreja no Sudão. Ao receber a notícia da morte de Comboni, o Papa Leão XIII exclamou: Pobre África, que perda tão grande tiveste!
«Comboni – escreveu um historiador da missão da África central – foi um homem de grandes capacidades, de corpo atlético, cor bronzeada, de olhos castanhos, cabelos escuros, barba comprida, olhar penetrante e meigo, fronte espaçosa e serena, voz robusta. No seu modo de proceder e de estar era nobre e quase majestoso, ao mesmo tempo que era muito afável nos gestos e nas palavras. Dotado pela natureza de um grande dom da palavra, na linguagem familiar possuía um grande sentido de humor, mas quando começava a falar dos negros, da África, da sua obra, inflamava-se extraordinariamente e discorria com tal impetuosidade e convicção, que se conseguia escutá-lo durante longas horas sem se cansar.
Simples como as crianças, não era capaz de mentir nem de dissimular. Por isso, enganaram-no muitas vezes, mas ele nunca enganou ninguém... Falava italiano, francês, alemão, inglês, espanhol, árabe e algumas línguas africanas. Escreveu muito sobre os problemas da África e muito mais tencionava escrever.»
Pouco depois da morte de Comboni, o Sudão sofreu uma sangrenta revolução político-religiosa, iniciada por um fanático muçulmano, Mohammed Ahmed el-Mahdi, que se proclamava como o novo profeta, enviado por Deus (el-Mahdi) para reconduzir o islão à sua pureza original.
Expulsos os egípcios do país e conquistada a cidade de Cartum no dia 26 de Janeiro de 1885, o Sudão ficou durante 15 anos sob o domínio dos guerrilheiros do Mahdi e seus colaboradores, até à reconquista de Cartum por parte das tropas anglo-egípcias, ocorrida em 1898.
Durante a perseguição muçulmana, a obra de Comboni foi aniquilada. As florescentes missões de Cartum, Delen e Malbes foram destruídas pelos fanáticos seguidores do novo profeta. Os sacerdotes e as religiosas que não conseguiram refugiar-se no Egipto foram encarcerados. Alguns deles morreram na prisão ou em consequência dela; outros conseguiram salvar-se fugindo.
O leigo Domingos Polinari, não conhecendo a gravidade do perigo, quis ficar na missão de Cartum. Durante o saque, levado a cabo após a conquista da cidade, conseguiu esconder-se num palheiro, mas depois foi capturado por um mahdista e tornado escravo até à morte, em 1890.
Após muitos anos de tentativas, infortúnios e realizações, a missão da África central parecia ser definitivamente um fracasso.
Mas, em 1899, quando tudo fazia pensar que não havia já qualquer esperança, o missionário Pe. José Ohrwalder, um dos poucos que tinham conseguido escapar aos horrores do cativeiro mahdista, regressava a Cartum e celebrava aí a santa missa com a participação dos escassíssimos cristãos que ficaram.
Finalmente: depois da morte, a vida; depois da destruição, a restauração; depois do calvário, a ressurreição da Igreja do Sudão.
A cruz tem força para transformar a África central numa terra de bênçãos e de salvação, escrevera Daniel Comboni, um dos raros homens que, nessa altura, teve a força de acreditar nos africanos e no futuro daquele continente.
A nova realidade, florescida no princípio do século passado e que prosseguiu até aos nossos dias, está recheada de acontecimentos maravilhosos e de grandes sofrimentos e contrastes, e a obra profética de Comboni e dos seus filhos espirituais prossegue.
A obra deste grande missionário, definido por um bispo da Índia como «o Francisco Xavier da África», longe de soçobrar sob o peso de acontecimentos tão trágicos, desenvolveu-se mais tarde com a bênção de Deus, estendendo-se também à América e à Ásia.
Para além das duas famílias religiosas de sacerdotes, irmãos e irmãs missionárias, formou-se uma nova família de Missionárias Seculares, que se dedicam principalmente à animação missionária. Este florescimento de obras é um novo testemunho da perene juventude da Igreja, mas também do valor insubstituível da cruz para a redenção do mundo.
Analisando, um século depois, a figura deste intrépido apóstolo da África e precursor dos novos tempos, ficamos maravilhados e interrogamo-nos como é que um homem, que viveu apenas 50 anos, viajou tanto quando as comunicações internacionais eram tão difíceis, fundou institutos tão importantes e despertou entusiasmos que ainda hoje perduram.
O missionário é o homem chamado por Deus para anunciar ao mundo o seu plano de salvação. A adesão a este convite realiza-se através de uma separação radical dos pais, familiares e amigos, da pátria, da sua própria cultura e de todo o tipo de comodidades.
O Pe. Daniel amava muito os seus pais mas não voltou atrás quando teve a certeza de que Deus queria que fosse missionário. O isolamento em que [os meus pais] irão encontrar-se, eis o que me perturba – escrevia ao pároco da sua aldeia em Julho de 1857, dois meses antes de partir pela primeira vez para a África –. Eu não tenho medo nem da vida, nem das dificuldades da missão, nem de nada; mas o que diz respeito aos meus dois velhos faz-me tremer... Se eu abandonar a ideia de me consagrar às missões estrangeiras, serei mártir por toda a vida de um desejo que nasceu no meu espírito há mais de 14 anos, e sempre cresceu, à medida que fui conhecendo a sublimidade do apostolado. Se penso no meu coração, ele sugere-me que sacrifique tudo e que corra para as missões, desprezando os mexericos... Terminei finalmente os santos exercícios; e depois de me ter aconselhado com Deus e com os homens, concluí que a ideia das missões é a minha verdadeira vocação... Foi-me assegurado que Deus me chama e eu parto seguro disso.
A vida de Comboni teve momentos de muita serenidade, alternando com períodos tumultuosos e duríssimos, como consequência de dificuldades causadas pelas circunstâncias e por pessoas invejosas, incluindo os seus companheiros de missão. Diante de tantos sofrimentos, ele reagia aumentando a sua confiança em Deus. Tenho observado que se me faz guerra quando estou
longe e me encontro na impossibilidade de me defender – escrevia em Abril de 1865 a um sacerdote do Instituto Mazza –. Quando estou perto, tudo sorri paz ao meu redor... Confesso que não entendo nada. Porém, a tranquilidade da minha consciência e o saber que Deus realiza no homem os desígnios da sua misericórdia me dão força de bendizer de todo o coração a divina Providência por este acontecimento. Embora a minha mente seja incapaz de ver através do nevoeiro do futuro, aventuro-me nele com serenidade e confiança sem me preocupar com as conclusões que disso possa tirar o mundo. Dou graças com toda a alma aos Corações de Jesus e Maria, que me concederam a honra e a graça de ser admitido a beber um amargo cálice, firme na esperança que ajudará à minha salvação. Bendigo mil vezes aos que contribuíram para me fazer sofrer esta tribulação e rezarei sempre por eles... Lanço-me cheio de confiança nos braços da Providência, disposto a tudo e sempre impávido e confiante, aconteça o que acontecer.
Numa carta expedida para Roma, ao cardeal-prefeito de Propaganda Fide, Comboni voltava a falar do tema do sofrimento: Escrevo estas poucas linhas porque estou consumido pelas febres, pelas tribulações, pelas canseiras e pelas angústias interiores. As obras de Deus, por leis admiráveis da Providência, devem começar e prosseguir aos pés da cruz. Cruz e martírio são a vida apostólica nos países não cristãos, e a África central também se converterá à verdadeira fé por meio da cruz e do martírio... O meu espírito está firme e vigoroso, e estou decidido... a tudo sofrer e a dar mil vezes a minha vida pela redenção da África central.
Comboni ocupa um lugar de destaque na história missionária contemporânea pelo seu espírito profético e pela actualidade dos seus métodos apostólicos. Ele não se fechou nos horizontes de uma só
nação, mas abriu o seu coração a toda a África. Para termos a certeza desta grande realidade basta ler o «Plano para a Regeneração da África», escrito em 1864, e a «Petição em Favor dos Negros da África Central», apresentada no Concílio Vaticano I, em 1870.
Depois da crise dos inícios do século XVIII, devido à extinção dos jesuítas pelo regime anticlerical do marquês de Pombal, em Portugal, à Revolução Francesa e a outras conjunturas europeias, as missões recobraram vitalidade na África até à segunda metade do século, devido ao mérito de autênticos profetas como o Pe. Libermann, a Madre Javouhey, o bispo Brésillac, o cardeal Lavigerie, o bispo De Jacobis, o cardeal Massaia, D. Daniel Comboni e outros. Os esforços missionários intensificaram-se em várias zonas do continente antes do início do fenómeno do colonialismo europeu.
Os obstáculos encontrados e o alto preço pago pelos missionários em vidas humanas – arrebatados prematuramente pelo clima, a solidão e outras dificuldades – levaram o Pe. Mazza a pensar na «salvação da África com a própria África».
O «Plano» de Comboni reapresentava, com maior lucidez, tendo em conta as múltiplas experiências vividas, o próprio «Plano» do Pe. Mazza. Um projecto ambicioso, mas ao mesmo tempo simples, coerente, tanto nas ideias como nas aplicações práticas. Comboni queria comprometer todos os católicos na responsabilidade missionária, antecipando as motivações do Vaticano II, ou seja: «A Igreja é por sua natureza missionária» (Ad Gentes, 2).
A evangelização da África tinha de se realizar através de um trabalho de conjunto e de profunda colaboração entre todos os institutos e organismos interessados.
O «Plano» previa também a fundação de uma série de instituições católicas masculinas e femininas ao longo da costa do continente para a formação dos africanos, que, mais tarde, seriam os evangelizadores das zonas do interior, inacessíveis para os europeus. Para preparar os futuros responsáveis destas instituições, fundar-se-iam alguns colégios missionários na Europa.